Ele estava onde a estrada já não sabia mais o próprio nome; uma estreita fita de terra que deixava para trás a última casa, atravessava um campo de cardos adormecidos e, enfim… desistia. Mudava o peso de um pé para o outro, riscando o chão como fazem os meninos que fingem não estar à espera de ninguém. As botas eram pequenas demais para seus pés em crescimento, o couro já gasto e a aba já frouxa de tanto uso. O cadarço do pé esquerdo jamais permanecia atado, por mais nós que Ava desse nele.
Além daquela rendição, o mundo se dissolvia num véu pálido e vivo. Os moradores da pequena vila francesa de Corbeil-Essonnes o chamavam de neblina da manhã. Leonarth nunca acreditara nisso.
Ao sul de Paris, onde o Sena encontra o Essonne, Corbeil-Essonnes seguia sua rotina. Moinhos giravam. Feiras se abriam na hora certa. Até os pombos respeitavam horário. Mas a névoa ali não seguia nenhum programa. E tampouco era apenas clima. Tinha peso.
Acumulava-se nos vales e subia em dobras lentas, cuidadosas, como se a própria terra exalasse algo que guardara por tempo demais. Serpeava ao redor das botas dele, roçando as barras das calças, fria, deliberada, do jeito que um gato testa a porta antes de se esgueirar. E, em algum ponto escondido na brancura da névoa, um sino soou uma única vez — não como medida do tempo, mas da distância. Uma lembrança de quão longe ele estava de seja lá o que possuía voz para tocá-lo.
Ele fechou os olhos.
O som atravessou seu corpo do mesmo modo como certos nomes, quando pronunciados pela pessoa certa — não chegam primeiro aos ouvidos, mas à alma. Não era o sino da cidade; aquele de bronze, preso ao campanário da Abadia de Saint-Spire, alegre e enferrujado em seu dever. Este era outro. Mais antigo. Mais puro. Sem ferrugem.
