Capítulo Um

“O Menino à Beira da Névoa”

Abriu os olhos novamente e conferiu a linha que desenhara com o calcanhar da bota: um arco raso na terra, um limite que não chegava a ser um círculo. A marca que nunca ultrapassava. Não sabia quem o ensinara a traçá-la; só sabia que a traçava havia anos. A curva se voltava para a névoa como uma mão em concha. 

“Covarde”, murmurou. 

Então, depois de uma pausa, com o jeito de quem ensaia desculpas: “Só cuidadoso.” 

E escutou suas próprias palavras, como quem enfim se rende a elas. 

Os talos secos do milho batiam uns contra os outros, entregues ao avanço do inverno. Uma carroça rangia a duas estradas de distância, a roda de aro de ferro cantando uma reclamação. Em algum lugar atrás dele, uma criança gritou o nome de um amigo e não recebeu resposta, o jogo suspenso no limiar entre o pânico e o triunfo. O mundo pulsava com os ruídos das pequenas vidas. A névoa, não. 

Enfiou a mão no bolso e encontrou a coisa que sempre carregava e nunca confessava a ninguém: um pedaço de vidro tão antigo que aprendera a se curvar. Vidro do mar, alguém poderia dizer, embora não houvesse mar a muitas horas de distância, mesmo para quem tivesse carona e permissão. Era leitoso, de veias esverdeadas, alisado até a forma de uma lágrima por mãos pacientes que ele não lembrava. Quando o erguia contra o sol, o mundo parecia jardins esquecidos sob as águas. 

Guardava o calor como se fosse vivo — mantinha-se quente, como se o bolso guardasse um fogo secreto, mesmo quando a manhã era cruel. E, ao incliná-lo, deixava escapar um tilintar seco, uma nota única que soava mais como lembrança do que como som. 

Então o ergueu diante de si. E a névoa, como que submissa, curvou-se dentro do vidro.