O rio não rugia. Murmurava. Sob os sons comuns da corrente se deslocando e dos juncos encharcados, havia outra coisa — um zumbido, como um fôlego puxado através de um corredor comprido. Não era a primeira vez que ele o ouvia. Mas naquela noite, parecia mais perto. Mais faminto.
Em algum ponto distante, atrás dele, os sinos da Abadia tocaram duas vezes — suaves, espalhados pelo vento. E, por um instante apenas, pareceu que a cidade inteira havia parado. Nenhum passo. Nenhuma voz. Nenhum pássaro. Só o rio.
Então vieram os fios.
Cintilaram de leve acima da superfície — veios finos de luz, prateados e trêmulos, como se fossem fiados do próprio fôlego da água. Entrelaçavam-se sem desenho fixo, formando arcos que se desfaziam antes de virar sinais. Maurice não se moveu. Não piscou. O mundo parecia se recolher para dentro daquele ponto silencioso onde água e memória se tocavam.
Algo se mexeu atrás de suas costelas. Um reflexo. Uma palavra que ele esquecera como dizer. Os lábios se abriram — mas nenhum som saiu.
Era perigoso demais. Cedo demais. E, além disso, o Véu ainda se mantinha.
Ele engoliu o ar e deu um passo para trás, rompendo o momento como quem arranca uma página de um texto sagrado. O rio se acalmou. Os veios desapareceram. O zumbido se dissipou.
Quando enfim se virou, as janelas da Abadia brilhavam como estrelas distantes. Em uma delas, um menino observava — pequeno, quase só um contorno, a mão espalmada contra o vidro. Maurice sustentou o olhar à distância e, naquele segundo, reconheceu nos olhos da criança uma pergunta que ecoava a sua própria.
