Capítulo Um

“O Menino à Beira da Névoa”

Os comentários se espalhavam rápido — cartazes borrados, o espaço da fogueira “estranho demais” — pequenos sinais de que as pessoas zombavam em público, mas levavam para casa em silêncio. 

Nada disso atrapalhava o festival. Não de verdade. Ainda assim, sob cada barraca, cada guirlanda presa com fita, algo mais se enroscava — uma tensão sem nome, um elo entre mundos. E, como o fio no sonho de Leonarth, vibrava logo abaixo do ruído. 

Muitos moradores ainda lembravam como, no outono anterior, o rio subira sem aviso, isolando bairros inteiros antes que qualquer ajuda chegasse. Os relatórios oficiais chamaram de fenômeno natural incomum, mas já naquela época os sussurros tinham surgido — teria sido mesmo só o clima, ou algo mais se mexera sob a superfície do Sena? Padre Maurice notara os sinais antes de todos: tremores discretos no solo, uma força estranha na correnteza, um tipo de ressonância no ar durante as orações da noite. Se fora intuição, conhecimento antigo ou outra coisa, ninguém saberia dizer. 

Ele agira rápido, reunindo voluntários e transformando a Abadia em refúgio antes mesmo de os serviços de emergência responderem. O refeitório, impregnado de cheiro de sopa e cera antiga, encheu-se de crianças assustadas e preces sussurradas. Maurice nunca falava sobre como soubera, afastando perguntas com o humor de sempre. Mas Leonarth, então com apenas doze anos, lembrava-se de como o padre permanecera em silêncio à beira do rio naquela noite, olhando para a água muito depois de o perigo ter passado, como se escutasse algo que só ele podia ouvir. 

Ele voltara sozinho, bem depois de os moradores terem recuado e das últimas famílias estarem a salvo dentro da Abadia. A chuva diminuíra para uma névoa fria, grudando no casaco e prateando a grama como geada. O Sena pulsava lá embaixo, cheio e escuro, a superfície lisa como um espelho sem estrelas. 

Maurice ficou parado no barranco. As botas afundavam na lama com um peso lento e firme. Ele não rezava. Não pensava. Apenas escutava.