Capítulo Um

“O Menino à Beira da Névoa”

Estava no fim dos sessenta anos, e ainda assim havia em seu jeito um calor jovem que contrariava a idade. O cabelo ondulado, caindo até os ombros — um pouco rebelde para a compostura clerical — rendera-se em grande parte ao cinza, embora restos do castanho claro insistissem nas pontas. O rosto alongado, a testa alta e os olhos fundos e gentis transmitiam mais sinceridade do que autoridade. Tinha o tipo de presença que parecia pertencer tanto ao púlpito quanto a conversas silenciosas à mesa de chá. Desarmava. Crianças e idosos confiavam nele sem esforço. 

Apesar do carisma suave e do respeito que despertava, Maurice permanecia humilde e reservado, nunca reconhecendo o quanto a cidade se apoiava nele. O sotaque inglês leve não soava como comando, mas como convite, e o humor afável amolecia até os anciãos mais rígidos. 

Essa mistura de proximidade e discrição lhe dava uma aura rara no meio clerical — menos a de um superior espiritual, mais a de um mentor atento, um sábio de vila. Não era surpresa que as pessoas o procurassem para pedir orientação sobre tudo: o sagrado, o prático, o que se dizia e o que não se dizia. 

Ele vagou pelos terrenos da Abadia sem um objetivo claro, deixando que a rotina conduzisse os passos. Quando o meio-dia se aproximava, padre Maurice já sentia o peso do dia se acomodar nos ombros. Os preparativos para a quinquagésima terceira edição do Festival das Luzes de Inverno mal haviam começado, e ainda assim sua energia parecia minguar — prova do tamanho da engrenagem que agora dependia dele para girar. 

Nada lembrava seus primeiros anos em Corbeil-Essonnes, quando podia se diluir na calma dos rituais da capela. Hoje, era o ponto de equilíbrio de toda uma celebração. E ainda havia dias de confusão pela frente. Coisas demais precisavam se encaixar para que tudo funcionasse; cedo demais o trabalho já parecia maior do que um homem só deveria carregar. 

“Depois de tantos anos, era de se esperar que eu parasse de me surpreender com essa loucura”, murmurou, meio divertido, meio exausto.