Maurice engoliu em seco, a garganta subitamente árida. Não conseguia afastar a sensação de que algo atravessara um limite. Não um acontecimento. Não uma pessoa. Um deslocamento. Algo além do véu do razoável, estendendo a mão para dentro.
E, se tivesse retornado — fosse o que fosse — não viria em silêncio.
Arrancou o olhar do teto e lembrou, com um pequeno sobressalto de irritação, do Arcebispo à espera e do relógio correndo. Com um suspiro resignado, apressou o passo em direção ao gabinete. Não era uma cena elegante: em uma mão, segurava um amontoado caótico de esquemas enrolados — plantas de tendas e palanques do festival — e, na outra, equilibrava com esforço um almoço embrulhado em papel pardo junto da Bíblia gasta. Avançava pelo corredor com a determinação atrapalhada de quem está atrasado e se recusa a admitir.
Passou pela biblioteca da Abadia quase correndo.
Ali, o ar parecia mais frio, mais quieto do que lembrava, como se o próprio prédio tivesse suspendido o fôlego. Então, das sombras, uma mão se fechou em torno de seu braço.
O corredor congelou. O silêncio se adensou.
Alguém — ou talvez algo — estivera esperando.
Ele não ouvira passos. Era isso que mais o perturbava. Não medo. Não exatamente. Mas algo arranhava a borda de seus pensamentos — como os glifos acima do altar, como o rio que um dia sussurrara seu nome. Alguma parte dele sempre soubera que esse momento chegaria. Só não sabia se estava pronto para lembrar o que ele significava.
O zumbido voltou, tênue como fôlego sobre vidro, vibrando através da mão ainda firme em seu braço.
Este é apenas o começo
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