Ele recuou um passo, a coluna tensa, os olhos varrendo as sombras do teto. Não por medo. Por vigília. Aqueles glifos haviam permanecido mudos por gerações. O reaparecimento não podia ser casual. Algo se deslocara — no mundo ou nele próprio, ainda não saberia dizer.
Baixou o olhar. Não em rendição, mas como quem tenta conter o que se move por dentro. O que marcara aquele teto não esquecera.
E ele também não.
Virou-se para sair, mas parou outra vez. À distância, as marcas ainda pulsavam na visão periférica — seriam desgaste do tempo ou desenho intencional? Deslocou-se um pouco para a esquerda, alinhando-se sob o eixo da abóbada. Dez, talvez quinze metros acima, as estrelas pareciam observá-lo de volta. Inclinou o corpo, semicerrando os olhos — olhos que um dia devoraram margens de livros com facilidade, agora desafiados pela idade e pela altura. Deu mais um passo.
A bota bateu em metal. Um candelabro raspou a pedra com um guincho seco, trazendo-o de volta ao presente de modo abrupto, quase rude. O mistério se quebrou por um instante, enquanto a realidade se impunha sem cerimônia.
A sensação de despertar, porém, não se dissipou. Ainda assim, ele não pronunciou os glifos em voz alta. Não ali. Não agora. Isso arriscaria mais do que estava disposto a explicar.
Permaneceu um momento, a mão apoiada na parede ao lado. A pedra era fria, mas não indiferente — parecia guardar um pulso próprio, lento, antigo. Durante anos, aquela Abadia fora refúgio, dever, rotina. Agora, o conhecido vacilava. O silêncio parecia atento demais. A luz, incisiva demais.
Será que os símbolos sempre estiveram ali, ocultos sob poeira e descuido? Ou haviam realmente… chegado agora?
E, se haviam chegado — por quê?
