A chave girou com a resistência de sempre, e a porta se abriu num rangido baixo, liberando um fôlego de ar com cheiro de poeira e pergaminho antigo. O gabinete exalava cedro, fuligem de vela e algo mais difícil de nomear — como chuva sobre pedra morna. Maurice hesitou antes de entrar. Ultimamente, evitava permanecer ali além do necessário.
O aposento não era grande. Nem abarrotado — cada coisa tinha seu lugar. Um globo antigo repousava ao lado de uma pilha de livros eclesiásticos envelhecidos. A tinta nas costas mal se distinguia, mas Maurice saberia nomear cada um sem esforço. As janelas estreitas deixavam entrar lâminas de luz fria, projetando sombras longas no chão de pedra, como costelas.
Na parede oposta, pendia o retrato esmaecido de uma antiga madre priora, o olhar severo e atento. Maurice o evitou por reflexo, deixando os olhos caírem sobre a gaveta fechada sob a mesa. A chave já não estava em seu anel de chaves. Ele a escondera anos antes — não para esquecer, mas para adiar.
Algo dentro dele se contraiu. Passou a mão pela superfície lisa da madeira, sentindo sob a ponta dos dedos o leve desnível onde ficava o fecho da gaveta.
A gaveta não o chamava. Esperava. Paciente. Em silêncio. Mas não ausente.
Ele se afastou antes que aquela quietude dissesse mais alto.
O ar carregado de poeira levantou um sopro de lembrança, como se a própria Abadia tentasse lembrá-lo de algo enterrado havia muito tempo. Ajustou a gola, roçou a mão no batente gasto da porta e se perguntou — não pela primeira vez — se aqueles festivais não escondiam mais do que mostravam.
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