Capítulo Um

“O Menino à Beira da Névoa”

Ele pensou em discutir e resolveu economizar o fôlego. 

A mente já seguia adiante, ensaiando o que diria à irmã Mabelle por chegar atrasado pela terceira vez naquela semana. 

*** 

O mundo fora da Abadia já começava a se mover. 

Os preparativos para o Festival das Luzes de Inverno — a tradição mais querida do ano — ganhavam corpo, atraindo visitantes e moradores com a mesma promessa de cor e movimento. Barracas eram erguidas, fitas apareciam nas janelas, e o burburinho crescia a cada esquina. 

Poucos, porém, lembravam da origem antiga da celebração. Muito antes de se tornar encontro sazonal, o festival fora uma observância sagrada — ligada, diziam alguns, a ritos feitos para manter a cidade firme enquanto os dias se afinavam e a luz se retraía. Com o passar dos séculos, o sentido se dissolvera em folclore, substituído por jogos e mercados. Ainda assim, os textos mais antigos — guardados numa câmara sob a Abadia cuja existência quase ninguém conhecia — falavam de sinais esquecidos e de ritos que um dia acompanharam aquelas luzes. 

Naquele ano, mesmo sem perceber, o ar parecia mais denso. Carregado. Como se algo adormecido tivesse começado a se mexer. Os sinais, sutis demais para a maioria, se insinuavam pelos cantos dos preparativos: um frio estranho na brisa, movimentos à margem do olhar, ecos que não combinavam com o resto. Para quem ainda sentia o compasso mais antigo da cidade — ou para quem acreditava nos ritos esquecidos da Abadia — era como se o espírito original do festival insistisse em ser lembrado. 

Até o padre Maurice, absorvido como andava, demorara-se mais do que o habitual diante da porta de seu gabinete, onde uma gaveta trancada aguardava em silêncio — a chave escondida havia anos, o conteúdo melhor mantido fora da memória. O que quer que tivesse sido ocultado talvez não permanecesse assim por muito tempo, pensou ele, parado no limiar.