Nos dias que se seguiram, os preparativos ganharam ritmo, e um caos vibrante tomou conta de Corbeil-Essonnes. As ruas estreitas fervilhavam de expectativa, e até os moradores mais sisudos acabavam arrastados pelo entusiasmo crescente. A energia quebrava o compasso habitual da cidade, mas era bem-vinda. Para muitos, significava uma pausa na repetição dos dias; para outros, uma chance rara de aparecer, de mostrar o valor do próprio trabalho ou daquilo que sabiam fazer melhor. Sob a desordem alegre, porém, perturbações mais sutis pareciam se espalhar, quase invisíveis, entre as barracas e os arranjos.
O festival se enchia de cor, misturando tradições antigas a distrações recentes — agricultores exibindo seus melhores produtos, artesãos cuidando com zelo de cada peça, crianças correndo sob lanternas como se a própria luz fosse parte da brincadeira.
A cidade inteira pulsava, e tudo acabava passando pela Abadia e pelo padre Maurice — que definia horários, aprovava posições e decidia quais comerciantes ficariam com as ruas mais disputadas.
No centro da praça, madame Carenne discutia a localização de sua barraca, o xale estalando ao vento frio como um estandarte.
Ali perto, duas meninas giravam sob um fio de lanternas de vidro que estavam sendo testadas para a procissão de abertura. Uma delas parou e apontou para a base de um poste, onde a geada formara uma espiral curiosa.
“Parece a bússola velha do papai”, sussurrou para a amiga.
A outra deu de ombros. “Vai ver é um feitiço.”
Riram e saíram correndo, sem notar que a espiral desapareceria antes de a hora passar, deixando para trás apenas a pedra úmida.
