Capítulo Um

“O Menino à Beira da Névoa”

No centro do desenho estava a estrela de ferro, com as outras quatro distribuídas ao redor, formando uma roda celeste perfeita. Aquela disposição não era casual; havia ali intenção. Cada estrela trazia uma iconografia própria, precisa, elegante, gravada como se por mãos que tivessem servido a algo mais antigo do que a própria Abadia. 

A estrela superior parecia arder com traços verticais de pedra salpicada de brasa, tão vívidos que Maurice quase sentiu calor na ilusão do fogo. À direita, a segunda exibia faixas horizontais de uma rocha clara, marcada pelo vento — linhas que pareciam se mover, como ar em deslocamento. À esquerda, a terceira cintilava com minerais verde-azulados, gotas suspensas na pedra, evocando água em queda, presa no tempo. Abaixo delas, a quarta era escura — pedra densa de terra, cortada por veios cinzentos e glifos adormecidos na sombra. 

Mas foi a estrela central que o reteve. 

A pedra trazia um brilho opaco de ferro, a superfície cruzada por marcas rúnicas finas que captavam a luz em fragmentos irregulares. Não eram falhas. Eram inscrições, gravadas por uma mão antiga e deliberada. Maurice estreitou os olhos — e dessa vez o reconhecimento não apenas emergiu: atingiu-o em cheio. 

Fogo. Ar. Água. Terra. 

E, no centro — ferro. 

Não alegoria. Não rito esquecido. Algo real. 

Maurice soltou o ar devagar. Aquilo não eram ecos. Eram sinais. Colocados ali com propósito. E, por alguma razão — depois de décadas ocultos — tinham escolhido aquele momento para voltar a se fazer notar.