Em certas manhãs, olhar através daquela lasca de vidro domada pelo tempo tornava o véu da névoa mais tênue; ele se agitava, e as sombras insinuavam formas humanas. Em outras, nada acontecia, e ele se sentia um menino fazendo de conta que podia transformar o mundo, o que era pior do que ser apenas um menino.
Mas naquele dia, algo diferente enfim aconteceu. A névoa se recolheu como um suspiro contido, e então se afastou, como se o vidro lhe devolvesse a lembrança de uma forma perdida.
E, diante dele, um caminho se desenhou — nada definido, apenas uma sombra de cinza mais profundo dentro da alvura da névoa. Disse a si mesmo que devia ser apenas a brisa.
De súbito, uma voz rompeu aquela visão, chamando seu nome e puxando-o bruscamente de volta à realidade, “Leonarth!”
Ele se sobressaltou. Não porque a voz fosse dura, mas porque era cuidadosa. As pessoas gritavam quando estavam com raiva ou quando amavam sem vergonha. Aquela voz não era nenhuma das duas coisas. Era a voz usada quando alguém se aproxima da beira de uma história e não quer assustar o final.
Ele se virou. Ava estava parada onde começavam os cardos; o hábito de noviça preso com esmero, o cabelo bem contido sob o lenço. Poderia ser a guardiã de qualquer um. Era a dele — ou, ao menos, a mulher que o mantivera alimentado, o guiara, lhe dissera quais homens evitar e em que dias era melhor andar de cabeça baixa quando ameaças ou confusão vinham pela estrada. Nunca lhe dissera se ele tinha os olhos dela. Ou os olhos de alguém, fosse quem fosse.
“Você prometeu”, disse ela.
Ele não perguntou qual promessa. Havia várias. Ficar dentro da cerca viva. Evitar o campo onde a terra afundara depois de uma chuva forte e nunca perdoara o rio por ter ido embora. Ir às aulas quando o sino da Abadia chamasse.
