“Eu não estou entrando”, disse ele, meio voltando o corpo para o véu. “Só estou —”
“Olhando”, completou ela por ele. “Você está ‘só olhando’ desde que aprendeu a andar.”
Ele guardou o vidro no bolso. “E se houver uma estrada ali dentro?”
“Há estradas em todo lugar”, respondeu Ava. “É isso que uma cidade é. Estradas que seguem adiante e estradas que voltam. Estradas que trazem visitantes que compram, e estradas que trazem os que não pagam. A única estrada que me importa é a que traz você de volta para dentro dos muros da Abadia quando o sino toca.”
Ele assentiu. Tinha treze anos e mais um pouco; assentir era o jeito mais seguro de atravessar o mundo.
Ava observou a terra onde o salto da bota dele marcara sua pequena lua. Não se aproximou. “Venha”, disse. “O festival é daqui a poucos dias. Não podemos convidar sussurros só porque um menino resolveu apostar com a neblina.”
“É só neblina”, disse ele, para ver o que aconteceria.
“É memória”, respondeu ela. E então, depois de uma pausa que não planejara: “E nem sempre é a sua.”
Ele a encarou. O vento levantou as pontas do lenço. Ele já a ouvira dizer mil coisas práticas — como manter a cabeça baixa nas longas horas de oração; como manter um homem civil evitando olhá-lo quando ele queria ser olhado; como distinguir mel de verdade de açúcar fervido. Nunca a ouvira dizer aquilo.
“O que você quer dizer?”
