Ela balançou a cabeça, como se o gesto pudesse soltar uma resposta, e então escolheu a honestidade. “Quero dizer apenas que há lugares onde o mundo guarda o que viu, e nem sempre se importa se os vivos saem melhores por isso.”
Ele quase disse: Eu não lembro de nada que valha a pena guardar. Não disse. Soaria como queixa, e além disso não era verdade. Lembrava de muita coisa: os sinos de Saint-Spire fazendo tremer as vigas da Abadia; a dor seca no fundo da garganta causada pela fumaça do incenso nas vigílias longas; o modo como os pulsos de Ava ficavam vermelhos quando ela se escaldava, e ela fingia não notar. Lembrava de um gato cinzento e silencioso que cruzava o claustro como se sempre tivesse sabido o caminho — surgindo e sumindo como quem não pertence a ninguém, mas de algum modo sempre o encontrava. Lembrava de uma canção de ninar que não era de ninguém. Lembrava de um nome que não dizia em voz alta, porque não tinha certeza se lhe pertencia.
“Deixe isso”, disse Ava outra vez. “A névoa ainda estará aqui quando você tiver se lavado, e você tem aulas para assistir.”
Ele não ultrapassou a meia-lua que havia traçado. Recuou dela, como se a marca fosse um fio de luz esticado demais, e ele não quisesse rompê-lo.
Por fim, se virou e começou a seguir Ava de volta à Abadia. Dali, já era possível ver os telhados da cidade — um encanto discreto — sem alarde, mas duradouro. Fileiras de casas de pedra ocre se inclinavam umas para as outras, como se trocassem segredos sobre vielas estreitas. A torre do sino da Abadia de Saint-Spire ecoava com uma voz mais antiga que o padeiro mais velho da cidade, espalhando-se sobre telhas e varais. Aos domingos, o ar trazia cheiro de brioche e incenso; às terças, o murmúrio das fofocas de feira em três línguas. Na maioria dos dias, a cidade seguia no compasso do rio e de seus rituais.
As crianças aprendiam a contar pelos balanços do velho portão de ferro da cidade. Os adolescentes marcavam o próprio crescimento na hera que subia pelo muro leste da Abadia. Havia uma história para cada fenda nos paralelepípedos, e ninguém concordava muito bem sobre quais delas eram verdadeiras.
