Capítulo Um

“O Menino à Beira da Névoa”

Alguns sussurravam que a Abadia já abrigara um príncipe escondido. Outros diziam que a adega guardava túneis cavados durante guerras que não apareciam mais nos livros. E, uma vez por ano, quando a névoa de inverno chegava cedo demais e demorava a ir embora, mulheres mais velhas murmuravam que a cidade “lembrava mais do que deixava ver”. A maioria dispensava isso com um dar de ombros. Ainda assim, ninguém passava sozinho pela torre do sino depois da meia-noite. 

Leonarth ergueu a cabeça e viu os muros da Abadia crescerem a cada passo, erguendo-se como uma maré de pedra enquanto ele seguia Ava. Crescera ali dentro, entre aquelas paredes, sentindo às vezes o peso da história e da memória se fechando ao redor, mesmo quando tentava empurrar de volta. E, ultimamente, aquela mesma névoa — a que ele deixara agora há pouco à beira do campo — parecia permanecer mais do que devia. Não só no ar, mas nos pensamentos, em sonhos que ele não conseguia reter, e no jeito como o vento às vezes sussurrava seu nome quando não havia ninguém por perto. 

Caminharam em silêncio e, quando finalmente passaram sob os arcos da Abadia, o sonho da noite anterior voltou de repente, apertando-lhe as costelas: água, luz, a sensação de cair para cima, e sempre a mesma voz — não alta, não nítida, apenas presente, vibrando como um fio contínuo no meio do fôlego. 

Às vezes, naquela voz, ele achava sentir o contorno de uma mão — gentil, precisa, como se colocasse algo em sua palma. Sempre acordava antes de ver o rosto de quem colocava. A dor que ficava depois era mais pesada que o sonho. 

Por um instante, pensou em contar aquilo a Ava. Mas nunca lembrava das palavras, só da dor que elas deixavam, como um nome que ele deveria carregar. Ela permanecia ali agora, mais aguda que de costume, recusando-se a desaparecer conforme a manhã avançava.