Do outro lado do jardim do claustro, meio encoberta pelos últimos fiapos de névoa, ele viu a irmã Mabelle. Estava sob o arco mais distante, imóvel, as mãos escondidas nas mangas. Não olhava exatamente para ele — parecia observar o espaço ao redor, como se vigiasse algo logo atrás de seu ombro. O rosto não era severo nem brando, apenas imóvel. Ele teve a sensação súbita de ter entrado num lugar que não devia.
Ela não falou. Não acenou. Permaneceu ali um instante a mais do que o necessário, então se virou e desapareceu pelo corredor interno, o hábito roçando a pedra num sussurro.
Ele quis chamá-la — dizer qualquer coisa banal. Perguntar do café da manhã. Lembrar que o caderno de matemática tinha sumido outra vez. Qualquer coisa que a fizesse voltar. Mas a voz ficou presa atrás dos dentes, como se soubesse que não devia.
Havia algo na quietude dela que o inquietava. Lembrava as noites em que ele acordava e a encontrava parada junto à janela do dormitório, sem se mover, como se escutasse algo muito distante. Quando perguntara sobre isso uma vez, ela apenas sorrira e dissera que as estrelas gostavam de sussurrar histórias antigas. Ele não entendera, mas o jeito como ela falara o fizera pensar que aquelas histórias não eram para ele.
Pensou, então, de novo na névoa, e se ela também guardava segredos. Se talvez os acumulasse nos desníveis do campo ou nos jardins da Abadia, esperando a manhã certa para soltá-los.
Ava parou tão de repente que ele quase esbarrou nela. Ficou olhando, o coração marcando um ritmo alto demais no peito. Ela o criara, mais do que qualquer outra pessoa. Desde que ele tinha cinco anos. Fora constante, gentil — distante de um jeito que ele nunca compreendeu por inteiro. Mas naquela manhã, o caminho de volta em silêncio parecia mais pesado. Não de raiva. Apenas… cheio. Como se ela carregasse algo demais e não soubesse onde deixar.
