Ele pressionou o polegar contra a borda do fragmento de vidro no bolso e sentiu o calor que ele guardava tão perto do corpo. Aquilo o acalmava, de um modo estranho e familiar ao mesmo tempo. O sonho voltou à mente, mas, como quase sempre, já se dissolvia. Ainda assim, o sentimento — aquele anseio invisível — permanecia.
Ava virou-se para ele. “Você sempre fica olhando desse jeito”, murmurou.
Leonarth piscou.
“Desse jeito como?”
“Como se estivesse esperando algo que esqueceu de você.”
Ele deu de ombros, subiu e desceu, e não respondeu. Queria contar a ela sobre o sino na névoa, aquele que não tinha ferrugem. Queria perguntar se ela já o ouvira alguma vez, se alguém na cidade já ouvira, e se todos fingiam que não, por praticidade — do mesmo modo que as pessoas fingem não pensar no fato de que o inverno sempre chega. Queria perguntar por que ela dissera a palavra memória daquele jeito, como quem nomeia um fantasma sem convidá-lo a sentar.
Não disse nada disso.
Os muros de pedra da Abadia, sempre à espreita, e o silêncio constante de seus corredores deixavam espaço demais para perguntas e pouco demais para respostas. Ele não guardava lembrança alguma de ter sido trazido para ali aos cinco anos — apenas o rastro da mão de Ava segurando a sua, e o boato de uma carta ilegível do Arcebispo da Inglaterra que abrira todas as portas sem explicação. Fragmentos de um começo que nunca se organizavam. E que o assombravam.
A voz de Ava veio mais firme dessa vez. “Chega de névoa por hoje”, disse, ainda sem encará-lo. “Você já andou e me encarou tempo demais sem motivo. Vamos resolver isso. Está atrasado para a aula, e a irmã Mabelle provavelmente já percebeu. Andando — sem desvios.”
